Bem Vindos...

Olá, caros visitantes do meu humilde blog. Aqui, posto alguns dos meus melhores textos, para melhor entretê-los e para que vocês possam refletir sobre os detalhes da vida. Coisas tão simples podem nos trazer o fenômeno da reflexão, tal esse que muda completamente nosso rumo vital e nos deixa até mais leves para viver. De uns tempos para cá, percebi que nos meus textos, tento expor alternativas para mudar o mundo. Engraçado, mas se são alternativas, fica a cargo de vocês leitores escolherem. Carpe Diem, amigos. Boa Leitura.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Sonho Voyeur.


     A criança não parava de chorar. O seu pranto ecoava pelos quarteirões, mas porta ou janela alguma se abria servindo o auxílio. Célia, moça jovem e honesta, apertava-a contra o peito delicado e quase nu, suas poucas roupas sobreviviam ao frio de junho. Tinha ouvido mais cedo: Sorrir é o primeiro passo à felicidade. Gostou da frase e ficou tentando sorrir, sem obter sucesso. Ela apenas mostrava os dentes, mas os olhos não se permitiam brilhar, exibindo um pseudossorriso claro. Nesse passo lento, Célia acalentava a criança e seguia pela rua deserta.
    Subitamente, uma leve chuva precipita-se, molhando a terra e espalhando o cheiro do barro lavado, disperso pelo chão. A pobre rapariga não podia e nem se permitia correr com a filha nos braços. A menina cessou a lágrima, engasgando-se com a garoa. Embrulhou-se no colo da mãe, que pode resignar-se, ter paz.
    Quando dobrou na esquina do Paiva, poucos metros depois, veio da Rua Borborema, um carro vermelho que parou ao lado dela. Célia engoliu o pouco de saliva que tinha, arregalou os olhos, num frenesi interno agonizante, abraçou a filha com força. Já ofegava muito e quando ia ensaiar uma discreta fuga, o vidro do carro desceu lentamente.
    Dois homens de meia idade, cabelos lisos, fitavam-nas misteriosamente do interior do carro. Um deles, de barba feita e aliança de casório, levanta uma cédula de cinquenta reais, oferecendo à moça. Célia, num breve embaraço, compreende. Abre a porta traseira, encosta a filha numa boa posição de dormir. Os homens partem para um motel aristocrático da zona norte.
    Entrando no quarto, ela aloca a garota num sofá de couro da entrada. Ela se remexe um pouco, porém continua dormindo. A mãe joga uma bolsinha infantil sobre a mesa. Os homens estão tirando os seus respectivos ternos finos. Nota-se que são endinheirados, não meros motoristas ou guarda-costas. Ligeiramente, Célia despe-se. Sua respiração tinha diminuído de ritmo, mas o frenesi permanecia. E assim, eram uma ménage à trois, quando se deitaram no leito.
    A pequena Nadine acordou-se e ninguém percebeu. Ela continuou de cabeça assentada sobre o travesseiro, apenas de olhos bem abertos. Célia tinha a boca fechada por um pano escarlate e acolhia os dois simultaneamente. A criança parecia confusa e, no entanto, não se movia. Ficou nessa posição até o fim da transa, quando tornou a fechar os olhos e adormecer.
  Os homens levaram-nas em casa e deixaram mais algum dinheiro. Célia conseguiu manter-se dessa forma, sem saber que sonho a filha teria. Nadine nunca entendeu nada, mas viu repetir-se essa cena em todas as noites da sua curta vida, que se findou num suicídio aos 16 anos, perdendo sua virgindade para dois rapazes.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Navegantes sem maré.


Sempre que estávamos subindo aquela ladeira, víamos, panoramicamente, a praia e eu tinha uma visão do paraíso. Sabia que ia escavacar a areia, descobrir poços, tentar construir castelos, tomar banho de mar, aprender a nadar e mergulhar. Ia voltar moreno, a pele dolorida de tanto sol e nenhuma preocupação com a vida. Hoje eu vejo a praia, como quem observa um escuro, os vagalumes passeando pelo ar. Minhas unhas enchem-se de areia, o sal arde em meus poros, sinto que já não me cabe na orla. Que eu seja um gigante, que sentado, contemple o oceano inteiro. Um adulto? É isso? Tudo bem. É decepcionante. Sou mais um a jogar a toalha e indagar o que falta. Entupo-me de subterfúgios, coisas que me fazem sentir completo. Dopado, melhor dizendo. Porque é assim que vive um adulto. Entope-se de açúcar, televisão, ideologia ou qualquer outra droga. São sempre fugas do cotidiano e estranhamento de uma fantasia nostálgica.
A criança vive concentrada. Ela não percebe o mundo ao seu redor, deixa o tempo passar, está sempre atrasada para o banho, quer dormir tarde e não pode, não consegue. Vive a doce ilusão da busca pela liberdade adulta. Mal sabe que contempla as madeixas da loucura, que pode sentir como ninguém, a gostosura de um banho de chuva ou de mar, de ingenuidade. Uma criança não entra no mar querendo fazer hidromassagem gratuita ou falar de negócios. Ela apenas quer ser arrebatada pelas ondas, ir para a parte funda da orla, onde só os adolescentes e adultos podem ficar. Ela quer desvendar a profundidade do mar, mas se vê aterrada só de pensar nos perigos do oceano. Os dilemas que as crianças enfrentam são bárbaros. Possuem a coragem defronte da fantasia. Criam e recriam personagens, enquanto adultos reclamam de falsidade, mentira e sentimento. A criança só conhece a mentirinha.
Só a criança pode celebrar uma missa de mentirinha, fazer uma cirurgia de mentirinha, apresentar um telejornal de mentirinha. E nas suas mentirinhas, recriam a vida, como ela nunca poderá ser recriada, por mais criativo que seja o pensante adulto. A criança conta a sua história, como o melhor dos escritores, imagina o futuro tal qual o mais louco dos videntes, tem a firmeza de poucos oradores. Na intimidade da sua cabana de almofadas, descansa o corpo franzino, adormece. A maioria dos adultos esquece-se de recriar. Aposenta as pantufas e inicia os sapatos, de sola dura, causando calos. Não conversa com as paredes, observa os sentimentos nas novelas. O infante brilha, no topo da sua timidez, balbuciando palavras, sem qualquer hesitação de pensamento. E abrindo os braços, contempla a vida, no pódio, celebrando o cerne da juventude, a fonte da felicidade pura, de onde nascem as contingências da alegria humana, o desejo pueril de realizar-se, do choro receber o seio, do chamado auscultar o grito, do coração alheio compreender nossa alma e acariciar nossa loucura, elogiando-a, olhando-a fraternalmente, como se estivéssemos na nossa cabana de almofadas, em casa, sorrindo sobre o perfume da maresia da minha infância.

terça-feira, 22 de maio de 2012

À rapariga gananciosa.

Rapariga, teus olhos não riem.
Por que forças?
Queres beleza?
Pegas uma faca e cravas em teu peito frívolo
Assim, farás uma bela pintura em vermelho
E eu verei, aplaudirei.
Quando estiverdes no além, não chora
Para não inundar meu sono perfeito
Nem grita, que não te escuto.
Estarei a amar, a dançar
E a sorrir, com toda a minha face
Meus olhos te esquecerão, como já o fazem.
Te contentas com essa tua voz inaudível
Esse teu fulgor de parede fosca
Teu corpo semiesco, sem qualquer graça.
Suma no mundo, porque até o nada te rejeita.

Tevê Ligada.

Como meditar, se a cada esquina
Eu caio num buraco de rua
E os moleques de rua
Que carregavam pipas
  [Eu carrego lápis na orelha.
Hoje, eles carregam um cigarro
Pesado como a lápide
Que encerrará suas poucas vidas.
Não vejo nada, porque não há cegueira
Mas uma conjutivite infernal
(O colírio só vende no mercado negro)
E os incrédulos sorriem.
Estão esperando-nos numa curva
Sabem a lei da gravidade (E ainda duvidam dela)
Para não cair nos buracos
Da inteligência.

O amor ignora tudo isso!
João ama Maria, ora que incesto.
No entanto, seria amor
e a sociedade não tem que ver com isso.
O tio de Maria a quer em sua cama.
O beato graceja as menores
E por aí vai...

Dentro de uma cápsula
É que é possível observar
As reentrâncias expressas
Ouvir os ecos, que repetidos,
Formam um hino nacional
 [E ponha a mão no peito.
   Só assim se conhece respeito,
   Ou quando entra velho no coletivo.

Grudei minha mão na gosma
Misturado a ela há
um cartaz de propaganda
comida estragada
chips e um crucifixo
a fotografia de uma família antiga
um palavriado hiperbólico
e um tipo de amor
que ora conheço, ora desconheço.

Lembro que vi esse amor na televisão
As pessoas ora prestavam atenção,
Ora conversavam entre si.
Nunca viviam esse amor
E nunca pensavam.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Fernando.


Mariana quis perseguir o cão, mas ele não estava pra brincadeira. Cão deprimido, no fundo da casinha, não quis jogo, nem folia. Mas Mariana insistiu e o cão gostou da fuzarca. Ela sorria com os latidos, os pulos e a língua nervosa, que lambia seu rosto, sem pudor. O cão estabanado se agarrava à Mariana, imitava a cópula, pensando a perna de Mariana como cadela no cio. A pequena não entendia absolutamente nada, mas gargalhava sem parar. Os olhos brilhantes, negros, não permitiam serem encarados. O cão, que não vivia sem condicionador de ar e comida gelada, aproveitava a fuga da melancolia, sua regalia angustiante, proporcionando à Mariana o lazer. Ela devaneava-se em seu pelo macio, a negrura dos olhos caninos a aterrava, entretanto prazia. 
Era assim todo dia, até que a Cristina chamava Mariana para o banho e o cão ficava no quer-mais. Esperava dez, quinze minutos, o dia inteiro, e Mariana o esquecia, tiranamente, no jardim. O cão retornava à melancolia, para voltar a não querer conversa. Até que no dia seguinte, Mariana, de novo, o incomodava. Ele não podia rejeitar a política injusta, não podia criticar o sistema, nem rosnar, como um cão faz, quando não gosta. Mariana não sabia se era sorriso, ou se gargalhada, e com tudo isso, o olho duro, mesmo de um ataque de histeria, de uma contemplação tediosa, como quem vive um eterno retorno, sem precisão de se entregar a um sentimento por inteiro.
Certo dia, o cão acordou querendo brincar. Mariana dormia com a porta do quarto aberta. O cão entrou na casa, procurando sua ingênua dona, encontrando-a babando o travesseiro de penas de ganso, cabelos estapafúrdios, camisola no meio da barriga. Proferiu dois latidos animadíssimos, cheios de expectativa num bom dia de travessuras. Mariana, deleitada em muita preguiça, no apogeu dos seus dez anos, gritou: “Vai te lascar, cachorro! Deixe-me em paz. Suma daqui.” Ele não entendeu as palavras dela. Mas sentiu profunda tristeza. Aos gemidos, saiu do quarto, sem um único rosnado.
         Quando saía de dentro da casa, cabisbaixo, em direção à sua suntuosa casa, esbarrou na cozinheira, dona Érica. Essa o acolheu. Foram à cozinha. Ele ganhou pedaços de carne, muito assunto pra por em dia e um bom presente: um nome. O cão passou a se chamar Fernando. Dona Érica, mulher gorda, amorosa, que gostava de lenço na cabeça, conversava com Fernando, dizendo confidências, reclamações e pilhérias mais infames, vez por outra, dando-lhe cafunés. Fernando parecia sorrir das histórias das pessoas que ouvia nitidamente. Tinha dentro de si, a grandeza de uma baleia, ostentava o espírito de poucas pessoas. E parou com suas angústias. Mariana cresceu tola e melancólica.

domingo, 6 de maio de 2012

A coruja e a lua.


A coruja que passa altiva
De peito alvo, canta a noite
E lua brilhosa revela-se brilhante
Falo em altissonante do meu amor
Mesmo de receio em pronunciar-me,
Mas esqueço o medo.
É dele que a desgraça e o ócio se alimentam.
A coruja ignora a escuridão
E grita ao luar, às árvores pardas
O vento que anuncia a sua chegada
Um silvo rasga o silêncio
   [Das correntes que pararam de arrastar
      Almas de amores não correspondidos.
Olhei a lua gigante, a coruja passou
Como vulto.
Correu atrás dela, seu marido, o corujo
Homenzinho desajeitado que quer seu amor:
Ele é amado.
E eu não vou mentir: Sou também.
Sem medo da felicidade.
Estou olhando a lua, enquanto minha coruja
Fita-a apaixonada, no seu ninho.